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25 de Agosto de 2000
Especial
Anos e anos de história
Figueira: a eterna praia de sempre
Texto: António Jorge
Lé
Fotos: Arquivo Municipal
Colaboração: Anabela Bento
"A
Figueira Está na Moda" — esta frase ainda dura e, com a chegada deste
mês de Agosto, está cada vez mais actual. Localizada no litoral centro, bem
posicionada geograficamente, a Figueira da Foz é a estância balnear dos
espanhóis e agora o ponto de encontro da animação de verão do turismo
nacional.
Banhada pelo Atlântico, com uma capacidade hoteleira super esgotada, a denominada Praia da Claridade tem conhecido um conjunto de inovações que lhe têm sido impostas pelo executivo municipal, liderado por Pedro Santana Lopes.
A Câmara Municipal tem apostado na promoção
e no rejuvenescimento da
imagem da localidade, que nos anos 40 e 50 foi a
menina do olhos dos muitos
turistas que nos visitaram.
"Praia de Sempre", como a apelidou Sebastião Pimentel Monteiro, a Figueira vive agora do turismo, da animação e do movimento que é intenso na praia e nas ruas junto ao Casino.
O Figueirense foi para a rua e fez reportagem. Falou com várias pessoas e ficou a saber que a Figueira agora está mais linda, foi isto que escutámos da boca de algumas das pessoas com quem falámos. O José, por exemplo, diz que o Agosto está o máximo, para já com um tempo óptimo.
Lídio Lopes, da empresa municipal Figueira Grande Turismo, não tem dúvidas: "o elevado número de visitantes é a prova que o sentido estratégico definido para a promoção da Figueira da Foz e para a programação da animação e dos diversos eventos, resultou claramente".
Mas se agora a Figueira é uma terra virada para o futuro, importa salientar o facto de no passado ter tido uma trajectória muito curiosa. Regressamos a esse tempo de recordações para muitos.

Uma viagem no tempo
É que a
cosmopolita praia da Figueira, que em 1858 já era considerada a melhor do
país, começou a alinhar barracas muito cedo. Acompanhou o crescimento do
turismo nacional e assistiu ao desfilar de toilettes típicas da
sociedade elegante e mundana que frequentava a mais linda praia de banhos de
Portugal, como a definiu Ramalho Ortigão. O escritor, ao espalhar uma série de
adjectivos pelas estâncias balneares da época, disse ainda que a grande baía
compreendida entre o Cabo Mondego e a embocadura do rio desenha uma curva
encantadora, lembrando os mais risonhos e os mais doces golfos do Mediterrâneo.
Chapéus ornamentados com laçarotes, botinas de cano alto, e os imprescindíveis saiotes, até ao chão, marcavam a moda feminina que também vestiu a praia da Figueira no princípio do século. Com um ar sério, os homens, de bigode e olheiras, faziam sobressair dos fatos escuros os colarinhos apertados. As luvas agarravam a bengala que marcava a era dos palhinhas e das polainas.
Os mais pequenos seguiam pela mão das criadas (trajadas a rigor), copiando a indumentária dos adultos que povoavam a praia, mas cuidadosamente resguardados do sol! A entrada e saída do mar eram envoltas num cerimonial bastante complicado, já que banhar o corpo e gozar o regalo da água era privilégio restrito.
A Figueira, no dizer dos escritores Maurício Pinto e Raimundo Esteves, era um burgo plácido e quieto, para onde se ia gozar um veraneio tranquilo e doce.
Chegavam ao trote açodado de carruagens vistosas, estrondeando na velha Rua do Monte, as fidalgarias de maior timbre e renome.
Em
Outubro, após as colheitas, os banhistas de alforge (abastados lavradores das
Beiras) davam continuidade ao verão.
Os miúdos, de sandálias e chapéu na cabeça, chilreavam como pardais em saudáveis brincadeiras: apanhavam conchas e davam corridas até chegar a hora do almoço, refeição que normalmente terminava com o tradicional melão.
À noite os cafés regorgitavam. As orquestras pincelavam de música as esplanadas. A Figueira saboreava os quentes anos da sua vida.
As raparigas andalusas deixavam no ar trilos rutilantes no período triunfal de cada época. Havia um esplendor aristocrático nas esquinas do Bairro Novo, zona que entretanto ia crescendo.
Os prédios caiados, o bafo do mar e a claridade do céu, conferiam à Figueira um estatuto único pedaço de encantamento, recorte afável e onde a sedução anda embalada, como frisou a poetisa figueirense Carmen Duarte.
Antero de Quental inspirou-se no pôr-do-sol da Figueira para, na sua poesia À Beira Mar o Crepúsculo, escrever:
Gigante imenso de esplendor e brilho
O Sol, um instante, viu-se ali lutar
Depois cansado, declinando rápido
A lassa fronte repousa no Mar.
Nas páginas antigas que relatam a história da Figueira da Foz, pode verificar-se que diversas unidades hoteleiras marcaram o arranque turístico desta cidade-praia. O Hotel Aliança, fundado no princípio do século por Domingos Martins, de início na Praça Nova e, posteriormente, com sucursal na Rua Miguel Bombarda, e o primitivo Hotel Reis, propriedade de José dos Reis Correia de Lemos, hoje Hotel Hispânia, foram determinantes para a hotelaria figueirense.
No Almanach Praia da Figueira (1878/79) anunciavam-se os preços deste hotel: Almoço de garfo, com dous pratos, vinho, chá ou café; jantar com trez ou quatro pratos de meio; ceia, servida às 8 horas da noite por cada hóspede 1:000 reis. Jantares à meza redonda, 500 reis por pessoa. Ceias, a sua importância varia em harmonia com o que for pedido.
No antigo Hotel Reis (nessa época situado na Praça Velha) estiveram hospedados, ao mesmo tempo, Guerra Junqueiro, Cândido de Figueiredo, Gonçalves Crespo, Manuel de Arriaga e Bettencourt Rodrigues.
Já não era um mero hotel de praia: era uma sucursal da Academia, uma espécie de Academia de banhos, como escreveu Luiz de Oliveira Guimarães.
O número de prédios de aluguer foi crescendo e a apetência para a actividade turística também.
Em 1942 a Figueira da Foz possuía 28 hotéis e pensões, num total de 663 quartos. Refira-se, a título de curiosidade, que em relação ao longínquo ano de 1879 verificava-se já um aumento de quartos na ordem dos 448%.
No início dos anos 50 arrancam as obras que ergueram o Grande Hotel da Figueira.
Arménio Faria, Ernesto Tomé, Pereira da Silva, Mário Barraca, Álvaro Borges, Luciano Coelho, Jerónimo Pais e Freitas Lopes, foram alguns dos nomes importantes no aparecimento do Grande Hotel.
Para a memória ficam ainda o Grande Hotel Jardim Español (assim designado por se relacionar com o intenso afluxo de turistas espanhóis) e o Casino Mondego, posteriormente Hotel Portugal.
Augusto Alves da Silva foi um nome importante na hotelaria local. A sua dinâmica foi responsável pelo aparecimento do antigo Hotel Praia e Estalagem da Piscina, para além de integrar a lista de fundadores da Sociedade Figueira Praia.
Augusto Silva iniciou-se na hotelaria no Hotel Martinho tendo, mais tarde, adquirido os terrenos onde foi edificado o Grande Hotel e de cuja obra foi grande impulsionador.

A capacidade hoteleira foi crescendo
De
frente para o Atlântico, com privilegiado olhar sobre a Serra da Boa Viagem, o
Grande Hotel da Figueira nasce num terreno da encosta e marca uma viragem na
oferta hoteleira nacional.
Idealizado pelo arquitecto Inácio Peres Fernandes, esta modelar unidade hoteleira foi inaugurada a 28 de Junho de 1953.
Um terraço panorâmico e uma torre elegante fixaram a sua postura altiva ante o mar e a praia, que tantos poetas cantaram.
Sem pesadas sumptuosidades, o edifício foi rodeado de vários estudos para que a comodidade e conforto por cinco andares e outros espaços públicos.
A inauguração
Às 13 horas do dia 28 de Junho, perante centenas de convidados, o governador civil de Coimbra e o então presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Álvaro Malafaia, procederam à inauguração do Grande Hotel, com o corte da fita simbólica.
Após demorada visita a todas as instalações, foi servido um banquete. Houve brindes e usou da palavra Arménio Faria, administrador-delegado da Sociedade Figueira Praia, entre outros.
O comendador Mário Barraca, o arquitecto Peres Fernandes, Carlos Eduardo Rodrigues (construtor civil), mestre Julião, Thomaz de Mello e Vaz Branco, foram algumas das personalidades distinguidas naquela tarde.
No acto inaugural foi executada a marcha do Vapor. Presentes estiveram as filarmónicas Figueirense e Dez de Agosto.
O Casino da Figueira e o velho Páteo das Galinhas
Dois anos após ter sido elevada à categoria de cidade, a Figueira da Foz inaugurava, a 3 de Setembro de 1884, o então denominado Theatro Circo Saraiva de Carvalho em homenagem ao ministro das Obras Públicas, do tempo de D Luís I, que concluíra a linha do Beira Alta, ligando assim a jovem cidade a essa importante via de comunicação para a Europa.
Construído em plenas vivências partidárias, num tempo recorde de cinco meses, sob a orientação do arquitecto José Luís Monteiro autor da estação do Rossio e ocupando um espaço de 4.000m2 suficientes para 3.400 espectadores, o Teatro Circo foi considerado uma das mais importantes salas de espectáculos da Península Ibérica, igualando em beleza e dimensão o famoso Prince de Madrid.
Este arrojado empreendimento ficou a dever-se em primeiro lugar à rivalidade e competição partidárias entre regeneradores detentores do Teatro Príncipe D. Carlos, onde não foi permitida a festa de homenagem ao ministro acima referido e progressistas que, por despeito, se viram compelidos a abraçar um projecto megalómano e definitivamente sobredimensionado para a época.
A mais linda praia de banhos portuguesa, como disse o escritor, ficava assim detentora da melhor sala de diversões do país tornando-se num importante pólo de atracção, à volta do qual se foi construindo um novo aglomerado, o Bairro Novo de Santa Catarina especificamente dirigido aos veraneantes e futuros frequentadores da Figueira da Foz.
O turismo dava os primeiros passos! Desde então, ao longo de mais de um século, a história e o desenvolvimento turístico da cidade confundem-se frequentemente com a do grandioso teatro que em 1900, após importantes obras de remodelação, passou a chamar-se Grande Casino Peninsular.

Os despiques foram fundamentais

Os despiques partidários entre progressistas e regeneradores provocaram grandes desenvolvimentos na Figueira da Foz, especialmente entre 1876 e 1886. Os simpatizantes de Fontes Pereira de Melo aproveitavam as páginas do jornal Correspondência da Figueira para difundir os ideais dos regeneradores locais, enquanto que os seguidores de Braancamp compraram o jornal democrata Comércio da Figueira a Alfredo Amorim Pessoa, para noticiarem os seu feitos.
A rivalidade política espalhava-se não só no plano económico, mas também nos aspectos cultural e artístico.
Os regeneradores abriam o Teatro Príncipe Carlos. Inaugurado em 8 de Agosto de 1874 e destruído por um incêndio em Fevereiro de 1914, era considerado para a época um dos mais elegantes da província e com uma lotação considerável, atendendo ao número de habitantes da Figueira.
Por sua vez os progressistas, em Dezembro de 1883, e com o objectivo de ultimar pormenores para o arranque da construção de outra casa de espectáculos (que competisse com o Teatro Príncipe), constituem uma sociedade por acções. A primeira assembleia geral é presidida por Joaquim António Simões (comerciante e exportador de vinhos) e secretariada pelo dr. Jacinto Augusto Santiago Gouveia e Manuel Gaspar de Carvalho.
Segundo se sabe, nesta reunião ficou decidido titular o Teatro-Circo com o nome de Augusto Saraiva de Carvalho, a quem, como já se aludiu, se deve a iniciativa da construção do ramal ferroviário entre Pampilhosa e Figueira da Foz.
Em Abril do ano seguinte iniciaram-se os trabalhos e, volvidos cinco meses (3 de Setembro de 1884), era solenemente inaugurado o Teatro-Circo Saraiva de Carvalho a maior casa de espectáculos do país até ser construído o Coliseu dos Recreios em Lisboa.
O desenho do edifício foi assinado pelo arquitecto José Luís Monteiro. O teatro, amplo e circular, poderia albergar mais de 3 mil pessoas, apesar da lotação oficial marcar 2.200 espectadores (44 camarotes; 120 fauteils; 500 cadeiras e 900 lugares na designada geral).
A pintura do teatro e arco do proscénio, em estilo grego, acompanhava o pano de boca que mostrava em perspectiva a jovem cidade, valorizando especialmente o casario da avenida. Belezas assinadas pelo cenógrafo Eduardo José Machado.
O edifício possuía, no 1º andar, três grandes salões de apoio à sala principal, para além do rés- do-chão onde existiam bilhares e o bufete.
Pelo Teatro-Circo passaram então as melhores companhias estrangeiras de ópera e os nomes mais importantes do espectáculo lírico internacional.
A inauguração
Naquela quarta-feira ventosa (3 de Setembro de 1884) a sala esgotou. Colocaram mais de 120 cadeiras, para além da sobrelotação da geral. Os preços oscilavam entre 2$500 e os 120 reis.
Na rua (desde as 7 da tarde) estava a Sociedade Filarmónica Figueirense, também ela com fortes ligações ao partido progressista local, que interpretou animados números musicais até às 8 e meia hora a que teve início o espectáculo de inauguração.
Depois de ecoar o hino, expressamente composto para o Teatro e de autoria de Francisco Xavier Roth, regente da referida banda, o actor Augusto de Melo declamou uma poesia do figueirense Acácio Antunes.
Um dia, à beira-mar; numa isolada costa,
Onde se ouvia só das vagas o fragor,
De rochas eriçadas, aos temporais exposta,
Erguera uma choupana um velho pescador.À pobre habitação, nos ermos areais,
Veio juntar-se em breve uma outra companheira;
Ao pé dessa ergueu-se outra e outra, e mais e mais:
Fez-se uma povoação às ondas sobranceira.E o marinheiro, ao ver surgir por entre as brumas
Esse branco estendal, risonho, à beira-mar,
Julgava nele ver uma ave d´alvas plumas,
que, de voar cansada, ali fora poisar.Foi crescendo, crescendo a pequenina aldeia
A remirar-se na água em curvas ondulantes,
E, qual fada do mar, ou lânguida sereia,
Ia atraindo a si, de longe, os navegantes.A aldeia fez-se vila, e foi crescendo ainda.
Tornou-se comercial, cheia de actividade,
Povoada, industrial, e buliçosa e linda,
Até se transformar, por fim, numa cidade.
Por entre poesias, o espectáculo prosseguiu. Na segunda parte representava-se o drama "As Noites da Índia", apresentado pela Companhia de Teatro Baquet, do Porto.
Foi uma noite memorável! Estava presente o espírito figueirense, numa clara alusão à jovem cidade que apenas um ano antes começava a ver alinhadas as ruas que faziam o Bairro Novo de Santa Catarina. Sabe-se que o terreno onde for a edificado o Teatro- Circo tinha sido oferecido à empresa construtora por Matias Joaquim Ribeiro.
Atendendo à sempre crescente afluência de banhistas e ao facto de ser um local privilegiado ponto de reunião obrigatório das melhores famílias que nessa época visitavam a Figueira o edifício sofreu novas modificações e fez surgir, em 1898, o grande palco do salão nobre.
O Casino e o Picadeiro: pontos de encontro

Ao virar do século esta casa de espectáculos foi em Casino, passando a ser pólo de desenvolvimento de todo o Bairro Novo.
Em 1909 a empresa construtora e exploradora do edifício arrenda-o ao francês Croisé D´Ancourt.A Sociedade Teatro-Circo Saraiva de Carvalho, Lda dá lugar à Sociedade de Turismo Figueirense, Lda.
Em 1928 é fundada pelo dr. António Sotero, entre outros, a Sociedade do Grande Casino Peninsular, S.A.R.L. que adquire o edifício e obtém a primeira concessão da Zona de Jogo.
Dificuldades financeiras da empresa levaram que esta, por execução de hipoteca a A. Piano Júnior, viesse a ser englobada pelo Grupo C.U.F..
Por não cumprimento da cláusula contratual de construção de um hotel, foi a concessão rescindida pelo Estado em 1946. O Casino abria sazonalmente. Em 20 de Julho de 1948 foi fundada por alguns figueirenses, nomeadamente Arménio Faria, dr. Ernesto Tomé, Augusto Silva, João Costa, Carlos Mendes e João Simões a Sociedade Figueira Praia, S.A.R.L., em substituição da Sociedade do Grande Casino Peninsular, tendo obtido novo contrato de concessão de Jogo. Nascia a Sociedade Figueira Praia.
No Páteo das Galinhas, no Picadeiro ou nos cafés, respirava-se o ambiente cosmopolita de uma cidade virada para o turismo.
Na memória ficam ainda as festas do Casino, as garraiadas infantis e o convívio entre naturais e visitantes.
Os anos foram passando, os espanhóis apareciam cada vez mais (salvo quando foi a Guerra Civil de Espanha) e a Figueira foi crescendo.
Hoje, a Figueira da Foz é uma cidade que recuperou protagonismo e que, resoluta, segue para o século XXI.