Diário de Coimbra
Quarta-feira, 2 de Maio 2001

Danças e “roubos” saúdam Maio
Em Quiaios, hoje como há cem anos atrás, ainda se saúda a chegada do “Maio”. E se antigamente se “roubavam” burros e carroças, picotas e ancinhos, actualmente ficam-se pelos atrelados, bicicletas e motorizadas. Mas o espírito ainda é o mesmo

O amanhecer do 1.º de Maio na Freguesia de Quiaios é diferente dos outros dias. No largo da pacata Vila amontoam-se atrelados, carroças, apetrechos agrícolas, vasos de flores, entre muitas outras coisas, enquanto que, nas árvores ou em cima da paragem do autocarro, as bicicletas desafiam a imaginação dos seus proprietários para as irem resgatar.
Mas a cena mais caricata é quando dois jovens surgem com o jumento pela corda, devidamente enfeitado com flores. A burra “Morenita” havia passado a noite na cozinha, pois o dono, António Andrade (conhecido por Gato Bravo), precavido, tentava que os netos não lhe fizessem o que ele fizera na mocidade. Mas o jovem, vá-se lá saber como, conseguiu “roubar” o animal e levá-lo para a praça. A população, temendo a reacção, aguardava expectante a chegada do “Ti Andrade”, que gosta da burra como se fora da família.
Mas nos seus 78 anos, António Andrade sabe que os mais novos apenas fizeram o que ele e já o seu pai e avô haviam feito e docemente fala com a “Morenita”. «Vieste ver o Maio?» pergunta-lhe ao mesmo tempo que lhe oferece rebuçados peitorais. A risada é geral e “Ti Andrade”, bem disposto, recorda que quando era jovem «era o capitão da quadrilha». «Até as picotas roubávamos, sem pisar nada, que o respeito era maior», diz com saudades de uns tempos que já não regressam.
Menos satisfeito ficou o Zé Xico quando viu a bicicleta pendurada numa árvore. Sem perceber como lha tinham “roubado”, começou a bater às portas, a pedir uma escada para a ir buscar. Mas poucos escapam a estas partidas e mesmo quem ri dos outros, acaba por descobrir que, na praça, afinal também estão coisas suas. «Olhe ali a sua pipa!» diz uma mulher para a outra. «Pode lá ser, não é nada». Mas afinal era, só não se percebia como tinha ali chegado.
Ninguém sabe como ou quando começou esta tradição que já teve “cenas” bem mais divertidas, como quando amarravam um burro ao badalo do sino da capela e sempre que o animal se mexia o som ecoava por toda a vila. Até que o padre resolveu tirar o badalo e acabar com a brincadeira. Ou então, quando os menos “brincalhões” chamavam a GNR para participar o “roubo” e o guarda, pacientemente, não aceitava a queixa, «pois não vê que é tradição?». E Maio chega todos os anos.  

 

 

Bela Coutinho

 

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