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Danças
e “roubos” saúdam Maio
Em Quiaios, hoje como
há cem anos atrás, ainda se saúda a chegada do “Maio”. E se
antigamente se “roubavam” burros e carroças, picotas e ancinhos,
actualmente ficam-se pelos atrelados, bicicletas e motorizadas. Mas o
espírito ainda é o mesmo
O amanhecer do 1.º de Maio na Freguesia de Quiaios é diferente dos
outros dias. No largo da pacata Vila amontoam-se atrelados, carroças,
apetrechos agrícolas, vasos de flores, entre muitas outras coisas,
enquanto que, nas árvores ou em cima da paragem do autocarro, as
bicicletas desafiam a imaginação dos seus proprietários para as irem
resgatar.
Mas a cena mais caricata é quando dois jovens surgem com o jumento pela
corda, devidamente enfeitado com flores. A burra “Morenita” havia
passado a noite na cozinha, pois o dono, António Andrade (conhecido por
Gato Bravo), precavido, tentava que os netos não lhe fizessem o que ele
fizera na mocidade. Mas o jovem, vá-se lá saber como, conseguiu
“roubar” o animal e levá-lo para a praça. A população, temendo a
reacção, aguardava expectante a chegada do “Ti Andrade”, que gosta
da burra como se fora da família.
Mas nos seus 78 anos, António Andrade sabe que os mais novos apenas
fizeram o que ele e já o seu pai e avô haviam feito e docemente fala
com a “Morenita”. «Vieste ver o Maio?» pergunta-lhe ao mesmo tempo
que lhe oferece rebuçados peitorais. A risada é geral e “Ti
Andrade”, bem disposto, recorda que quando era jovem «era o capitão
da quadrilha». «Até as picotas roubávamos, sem pisar nada, que o
respeito era maior», diz com saudades de uns tempos que já não
regressam.
Menos satisfeito ficou o Zé Xico quando viu a bicicleta pendurada numa
árvore. Sem perceber como lha tinham “roubado”, começou a bater às
portas, a pedir uma escada para a ir buscar. Mas poucos escapam a estas
partidas e mesmo quem ri dos outros, acaba por descobrir que, na praça,
afinal também estão coisas suas. «Olhe ali a sua pipa!» diz uma
mulher para a outra. «Pode lá ser, não é nada». Mas afinal era, só
não se percebia como tinha ali chegado.
Ninguém sabe como ou quando começou esta tradição que já teve
“cenas” bem mais divertidas, como quando amarravam um burro ao
badalo do sino da capela e sempre que o animal se mexia o som ecoava por
toda a vila. Até que o padre resolveu tirar o badalo e acabar com a
brincadeira. Ou então, quando os menos “brincalhões” chamavam a
GNR para participar o “roubo” e o guarda, pacientemente, não
aceitava a queixa, «pois não vê que é tradição?». E Maio chega
todos os anos.
Bela
Coutinho
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