Diário de Coimbra
Sabado, 2 de Junho 2001

“Algas azuis” andam a matar a Lagoa da Vela
Um «gravíssimo acidente ecológico», foi como ontem a vereadora Maria do Rosário classificou o que se passou na Lagoa da Vela. Os resultados da DRABL indicam que morreram cerca de 8 toneladas de peixes, numa lagoa que está praticamente moribunda

A alteração na água que levou a esta verdadeira mortandade ficou a dever-se a uma forte subida de clorofila A, de 35 miligramas por metro cúbico para 255, a um abaixamento dramático no oxigénio para níveis «de quase inexistência» e ao aumento de microrganismos produtores de toxinas muito nefastas.
Estas “algas azuis” ou “cianobactérias” que atrofiam as guelras dos peixes, entram em explosão populacional em face de determinados fenómenos poluidores, como o caso dos nutrientes (adubos) utilizados pelos agricultores para fertilizarem os seus terrenos e apesar do seu tempo de vida ser curto, quando morre entra em decomposição e serve para aumentar o número existente.
Mas os efeitos nefastos não se ficam pelos danos causados na actividade piscícola, que neste caso resultou na morte da «quase» totalidade de espécies existente na Lagoa da Vela. Também no ser humano pode causar lesões hepáticas, dermatites e diarreias, não estando colocada de parte a possibilidade de ser um agente promotor do cancro.
Aliás, a vereadora Maria do Rosário Águas, diz-se «espantada» por tantas entidades ligadas ao ambiente se terem colocado contra a instalação do golfe naquele local e ninguém ter tomado medidas em relação a esta cianobactéria, quando, sustentou, já em 1991, um artigo, baseado num estudo efectuado no local pelos professores Vítor Vasconcelos e Amadeu Soares, alertava para a proliferação deste microrganismo, que colocava em causa a saúde pública.
Dizendo-se «desiludida e preocupada» e considerando que a população da Lagoa da Vela «foi ultrajada», Rosário Águas garante «não compreender» como é que ninguém se concentrou nesta espécie, sustentando que o Governo tem agora a oportunidade de provar que, quando integraram a área na Rede Natura, «não foi apenas uma demarcação em mapa, antes uma séria preocupação com o ambiente», disse.
Aquela responsável que solicitou uma reunião com o Ministério do Ambiente e Instituto de Conservação da Natureza, questionou-se também sobre a ausência de (re)acção da presidente da Liga da Protecção da Natureza a esta «catástrofe», quando foi das primeiras a «levantar a voz», contra o campo de golfe, perguntando-se se «estará de facto preocupada com o ambiente».
 
A culpa não morre solteira

Pretendendo que se conheçam as causas que levaram a esta proliferação repentina da “alga azul”, a vereadora considera que, para se tomarem medidas é necessário saber o que originou a situação, até porque, referiu, se se vier a provar que foram os nutrientes utilizados na agricultura, «há formas de minimizar e controlar minimamente os adubos».
Entretanto o vereador Miguel Almeida, defendeu esperar «que alguém assuma responsabilidades», não estando a colocar em causa, salvaguardou, «este ICN», mas sim «a instituição que há muitos anos descura esta matéria».
Questionado pelo nosso Jornal sobre algum eventual perigo de contaminação da água no concelho, uma vez que actualmente o abastecimento se faz através da Lagoa das Braças onde alegadamente poderá existir a mesma cianobactéria, Miguel Almeida informou que a Empresa “Águas da Figueira” está a efectuar análises à água diariamente, que a estação de tratamento salvaguarda esta situação e que dia 8 de Junho a captação de água vai voltar a ser feita através do Rio Mondego, uma vez que os trabalhos de reparação da estação de tratamento de Vila Verde, cuja canalização foi danificada nas últimas cheias, estão concluídos.  

 

 

Bela Coutinho

 

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