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"Enterro
do Bacalhau” recheado de críticas
Ao som da filarmónica
e percorrendo lentamente diversas zonas nobres da cidade, recuaram-se décadas
e reviveu-se o passado. A tradição do cortejo do “Enterro do
Bacalhau”, promovido pela Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, saiu
à rua e foi vista por milhares de pessoas ao som de algumas críticas
Com dezenas de figurantes, vestidos a preceito, o cortejo do “Enterro
do Bacalhau” percorreu diversos locais estratégicos da Figueira da
Foz. Pelo caminho, nas breves paragens, deixavam-se no ar críticas,
sugestões e lamentos, alguns bem apimentados. A filarmónica da
colectividade encerrou o cortejo e sábado, tal como há cem anos atrás,
as pessoas acotovelavam-se para não perder pitada.
Antigamente os alvos eram a igreja (que obrigava os mais pobres, sem
dinheiro para pagar a bula, a comerem bacalhau durante vários dias) e
os mais ricos, que, com dinheiro, podiam pagar os prazeres da boca.
Actualmente, aproveita-se esta iniciativa para ir dizendo algumas
verdades aos políticos e aos organismos mais emblemáticos da terra.
A primeira paragem, tal como antigamente, foi junto à antiga sede da
Naval 1º de Maio, na Rua da República. As críticas foram para as
inundações sistemáticas naquela zona e para a antiga sede da Naval 1º
de Maio, dizendo que «se dantes era uma sede com nível/com os anos foi
perdendo/com o incêndio desaparecendo/ e agora está invisível».
Para a Câmara Municipal, os vereadores e particularmente Santana Lopes,
foram desabafos sobre a gestão autárquica, a política seguida e a opção
do presidente, em ser candidato a Lisboa, afirmando-se que «sua alteza
está farta/ pois tem maior ambição/antes prefere reinar/ na capital
da nação».
O trânsito da cidade, o Mercado Municipal, as habitações degradadas
na zona do Bairro Novo, as obras infindáveis na Praça Velha, foram
outros alvos da Dez de Agosto, que ao Casino apelou para que, com as
verbas das contrapartidas de jogo, se faça algum investimento nas
colectividades. «Olhando agora o Casino/onde a roleta e as máquinas/ dão
dinheiro com fartura/eu julgo que bom seria/que parte dessa
quantia/fosse empregue na cultura».
Exactamente na zona do Bairro Novo provou-se que esta tradição
continua a mover figueirenses e visitantes. Turistas de várias
nacionalidades fotografavam e pediam que os fotografassem ao lado dos
figurantes, para mais tarde recordar. Mas um dos momentos mais
interessantes da noite aconteceu quando, por entre a multidão, rompeu
uma vistosa espanhola que, emocionada, fazia questão de dizer a todos
que quiseram ouvir, que «quando era ninã», vira vários anos o
“Enterro do bacalhau” na Figueira da Foz.
Muitas décadas depois, reviveu a infância, graças à Sociedade Filarmónica
Dez de Agosto, que justificou assim, a alcunha de “Teimosa”.
Bela
Coutinho
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