Diário de Coimbra
Segunda-feira, 16 de Abril 2001

"Enterro do Bacalhau” recheado de críticas
Ao som da filarmónica e percorrendo lentamente diversas zonas nobres da cidade, recuaram-se décadas e reviveu-se o passado. A tradição do cortejo do “Enterro do Bacalhau”, promovido pela Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, saiu à rua e foi vista por milhares de pessoas ao som de algumas críticas

Com dezenas de figurantes, vestidos a preceito, o cortejo do “Enterro do Bacalhau” percorreu diversos locais estratégicos da Figueira da Foz. Pelo caminho, nas breves paragens, deixavam-se no ar críticas, sugestões e lamentos, alguns bem apimentados. A filarmónica da colectividade encerrou o cortejo e sábado, tal como há cem anos atrás, as pessoas acotovelavam-se para não perder pitada.
Antigamente os alvos eram a igreja (que obrigava os mais pobres, sem dinheiro para pagar a bula, a comerem bacalhau durante vários dias) e os mais ricos, que, com dinheiro, podiam pagar os prazeres da boca. Actualmente, aproveita-se esta iniciativa para ir dizendo algumas verdades aos políticos e aos organismos mais emblemáticos da terra.
A primeira paragem, tal como antigamente, foi junto à antiga sede da Naval 1º de Maio, na Rua da República. As críticas foram para as inundações sistemáticas naquela zona e para a antiga sede da Naval 1º de Maio, dizendo que «se dantes era uma sede com nível/com os anos foi perdendo/com o incêndio desaparecendo/ e agora está invisível».
Para a Câmara Municipal, os vereadores e particularmente Santana Lopes, foram desabafos sobre a gestão autárquica, a política seguida e a opção do presidente, em ser candidato a Lisboa, afirmando-se que «sua alteza está farta/ pois tem maior ambição/antes prefere reinar/ na capital da nação».
O trânsito da cidade, o Mercado Municipal, as habitações degradadas na zona do Bairro Novo, as obras infindáveis na Praça Velha, foram outros alvos da Dez de Agosto, que ao Casino apelou para que, com as verbas das contrapartidas de jogo, se faça algum investimento nas colectividades. «Olhando agora o Casino/onde a roleta e as máquinas/ dão dinheiro com fartura/eu julgo que bom seria/que parte dessa quantia/fosse empregue na cultura».
Exactamente na zona do Bairro Novo provou-se que esta tradição continua a mover figueirenses e visitantes. Turistas de várias nacionalidades fotografavam e pediam que os fotografassem ao lado dos figurantes, para mais tarde recordar. Mas um dos momentos mais interessantes da noite aconteceu quando, por entre a multidão, rompeu uma vistosa espanhola que, emocionada, fazia questão de dizer a todos que quiseram ouvir, que «quando era ninã», vira vários anos o “Enterro do bacalhau” na Figueira da Foz.
Muitas décadas depois, reviveu a infância, graças à Sociedade Filarmónica Dez de Agosto, que justificou assim, a alcunha de “Teimosa”.  

 

 

Bela Coutinho

 

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