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Uma recriação
de jogos de praia tradicionais levou até à Praia de Buarcos, Figueira da
Foz, cerca de uma centena de miúdos e graúdos, numa actividade
organizada pelo Grupo de Instrução e Sport (GIS)
Papagaios de papel, jogo do prego, jogo do mata, anelinho, lencinho,
corridas de latichas (caricas) entre outros. Tudo jogos que pouco mais são
que uma saudade nos areais portugueses, mas que a colectividade da praia
de Buarcos teima em não deixar desaparecer.
«Os miúdos não sabem destes jogos, às vezes porque ninguém os ensina»,
sublinha António Inácio, presidente da direcção do GIS. Mas não só:
«Dantes juntávamo-nos todos na praia, não havia tanta preocupação com
as crianças como agora», adianta.
Tradicionalmente jogado às horas mais frescas, logo pela manhã até ao
meio-dia ou ao final da tarde, pois «na força do calor nem os pais
deixavam», o jogo do mata era um dos mais apetecidos: «Saíamos a suar
directos ao banho», relembra António Inácio.
E como naquela altura não se ouvia sequer falar em protectores solares,
depois do banho tomado «era a própria areia» que protegia as crianças
dos malefícios do sol, se é que existiam.
Além do “mata”, o jogo da laticha ocupava o topo das preferências,
em especial do lado dos rapazes. Então como agora, a pista era feita na
areia, usando um método arcaico sim, mas funcional. «Recorrendo ao
traseiro de uma das crianças participantes, puxada por dois colegas de
brincadeira», explica, entre sorrisos, o dirigente do GIS.
Conhecidas por estas bandas como “latichas”, as tampas das garrafas
estão alinhadas e cada um dos concorrentes, à vez, dedo indicador a
postos, dá o seu melhor. Um monte de areia, colocado a meio do percurso
marca o prémio da montanha “e quem o vencia ganhava um papelinho
cor-de-rosa, a camisola», revela António Inácio.
«Já hoje joguei à laticha, já ganhei o dia», diz um comovido António
“Figo”, do alto dos seus 60 anos.
«Fazíamos isto todos os dias, era o nosso jogo», frisa. Ao seu lado, o
Manel, com 7 anos, natural de Coimbra, confirma com um «gostei mesmo das
cariquinhas» a popularidade do passatempo.
Há muitos anos atrás, o jogo dos ciclistas rivalizava com as latichas.
Bonecos de plástico, em cima de uma pequena bicicleta, cada qual com a
sua cor. «Até rompíamos as calças de tanto andar na areia», lembra
António “Figo”, enquanto observa os ciclistas, deslizando pista fora,
conforme os “quilómetros” ditados pelos dados.
Ao lado da laticha joga-se o lencinho. Participantes dispostos num círculo
que, conforme a manhã ia avançando, aumentava de tamanho. Ao som de uma
lengalenga, um dos jogadores deixa cair o lenço nas costas de outro, que
tem de perseguir o primeiro. O adversário corre o mais que puder,
tentando ocupar o lugar deixado vago na roda. Eles, de todas as idades,
mostram-se melhor preparados fisicamente do que elas...
E do lencinho para o anelinho. Então como agora, um jogo «que, para além
das crianças, cativa os mais graúdos”, diz António Inácio. Depressa
se constitui uma roda com cerca de 15 participantes, novos e menos novos,
segurando uma corda por onde desfila um anel. No meio, o “babão” ou a
“babona”, dependendo se o jogador é do sexo masculino ou do feminino.
«Babão que estás no meio, ó babão / estás feito um toleirão, ó babão
/ estás vendo o anel passar / sem nunca o poderes achar/ Ele aí vai, ele
aí vai, ele por aqui passou / mas já parou, quem tem?». Ao som da canção,
o anel roda de mão em mão. Acaba a cantoria e o “babão” tem de
descobrir o anel.
Uma associada do clube vai explicando a uma criança como se joga. «Isto
é simular para enganar», explica a senhora, logo secundada por António
Inácio: «Enganar na brincadeira não faz mal».
Mas o destino tem destas coisas e o dirigente máximo do GIS é apanhado
de anel na mão. Duas tentativas depois, António Inácio continua no
centro da roda. As reacções não se fazem esperar: «O presidente é o
maior babão hoje», alguém exclama. «Arranjem-
-lhe uma cadeira!», remata outro.
«Até ver, é dos jogos com mais adesão», refere António Inácio,
quando, finalmente, cede o lugar. A demonstração do anelinho tem mesmo
direito a repetição, com mais jogadores, e um participante especial, que
minutos depois já estava no meio da roda.
«Ena, isto anda depressa!», exclama Azenha Gomes, vereador da Câmara
Municipal. «Nem os políticos escapam...», brinca António Inácio,
enquanto vê o autarca disputar-lhe o título de maior “babão” do
dia.
A contenda termina num empate, com Azenha Gomes a safar-se do centro da
roda à terceira tentativa. O desafio não deixa mazelas, pois para o
vereador «nunca é tarde para aprender».
«E gosto muito de estar aqui e poder compartilhar com esta juventude
estes momentos», salienta.
Diana Batista, 11 anos, da Figueira da Foz, participou em vários jogos
mas continua a preferir «os de agora, que são mais divertidos», afirma.
Futebol, basquetebol e voleibol são aqueles que elege «mas do babão
gostei», realça.
Com o aproximar da hora de almoço, Rosa Branco prepara-se para abandonar
o areal da praia de Buarcos, povoação onde nasceu e onde não vinha há
31 anos. Hoje com 48, emigrada nos Estados Unidos desde os 16, acha «engraçado
dar de cara com estes jogos aqui».
«Foi uma surpresa, não estava à espera», sublinha, defendendo que
tradições como estas deviam ser continuadas «por pais e filhos. para não
se perderem».
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