Diário de Coimbra
06 de Fevereiro de 2000

Quinta de "sonho" às portas da Figueira

Gamos, vacas charolesas, cavalos e aves coexistem numa quinta de turismo rural nos arredores da Figueira da Foz que atrai crianças da cidade à descoberta de um mundo que lhes é cada vez mais estranho

Além dos turistas que a procuram, a Casa da Azenha Velha suscita a curiosidade de muitas crianças que só costumam ver galinhas já mortas nas prateleiras dos supermercados e pensam que as batatas já nascem descascadas dentro de sacos de plástico. Na povoação de Caceira, a 5 quilómetros da Figueira da Foz, não se está perante um parque temático ou um mini-zoológico embora o médico Vítor Nogueira, proprietário da quinta, saliente «a função didáctica» dos animais. As crianças «especialmente as das grandes cidades» são visitantes habituais dos 10 hectares da Azenha Velha, um espaço onde podem andar à vontade «pois não há poços nem perigos do género», diz Vítor Nogueira. Nesta descoberta do mundo rural pelos mais pequenos acontecem situações curiosas. Um dia um rapazinho, gritando pela mãe, pôs em sobressalto toda a gente. Descoberto junto ao limoeiro, veio a surpresa: «Olha mãe, batatas». Outro exemplo que, segundo o médico, «muito espanta» os mais pequenos «é quando vêem galinhas pela primeira vez». «Vêm cá crianças das escolas para os ver», diz Vítor Nogueira, facto que o levou a escrever uma carta aos serviços do ministério da Agricultura, pedindo isenção do pagamento das taxas devidas pela presença dos animais. «Eu cumpria a lei e ia pagando» sublinha, mas a carta acabou por ter efeito contrário ao esperado. No caso dos mofelões da Córsega, uma espécie de cabritos-monteses, enquanto esperava pela resposta, deixou de pagar e os serviços acabaram por lhos tirar. Os animais foram levados para Viseu e pouco depois Vitor Nogueira estava a receber um telefonema com alguém a perguntar que ração lhes dava. «É que os animais não comiam e ninguém sabia o que fazer», conta. Burocracia igual a desgraça Foram os mofelões como já antes tinha sido obrigado a desfazer-se dos javalis. Após ter acedido a emprestar um casal para uma exposição em Coimbra, foi multado alguns meses depois, diz Vítor Nogueira. As suspeitas de peste suína levaram ao abate dos animais para pouco tempo depois nova comunicação dos serviços autorizar, afinal, a sua presença. Situações como as descritas levam o proprietário a considerar a burocracia «a grande desgraça deste país». Quanto aos gamos ibéricos, que dispõem de um amplo espaço próprio, ao serem considerados «uma espécie cinegética», só para os poder ter o proprietário paga 60 mil escudos anuais ao Estado. Já os da Índia, dos quais possui um casal, diz que pode ter «os que quiser». Num espaço adjacente aos gamos habitam os nandús, um animal da família da avestruz. Vitor Nogueira começou por adquirir três fêmeas e um macho, sem saber que estava a cometer um erro. «É que quem choca os ovos e cria os filhos é o macho» sublinha. Em resultado disto, as fêmeas punham ovos «em todo o lado e o pobre do macho nem sabia para onde se virar». Todos os animais foram comprados no Jardim Zoológico de Lisboa, uma instituição que Vítor Nogueira afirma gostar de ajudar. «Compro tudo no zoo porque toda a gente sabe que os animais lá são bem tratados», afirma. Faisões, pavões e outras espécies de aves, bem como cavalos podem ser vistos na Azenha Velha, local onde o Maestro, um boi charolês com três anos e o respeitável peso de 1100 kg, é outra das atracções. Nascido com 50 quilos, um animal como o Maestro durante o primeiro ano de vida cresce à razão de dois quilos por dia, pesando cerca de 600 kg 12 meses depois. Pela quinta passou mesmo um boi que pesava 1530 kg, nos tempos em que Vítor Nogueira se dedicava ao negócio de criação da raça charolesa, chegando a ser proprietário de 42 cabeças de gado. “Fui muito gozado” Nos dias de hoje resta o Maestro e três vacas que cumprem «uma função decorativa», integrados no projecto de turismo rural. O boi tem sido cobiçado para participar em concursos de raça charolesa, facto que Vítor Nogueira não estranha pois outro animal da quinta em tempos «venceu primeiros prémios em Santarém e Salamanca» afirma. Aos 67 anos, Vitor Nogueira, que continua a exercer a sua profissão de médico de clínica geral, lembra a altura, há cerca de 30 anos, em que adquiriu a Azenha Velha. «Fui muito gozado pelos amigos, isto era só silvas, era a lixeira da aldeia», recorda. Na quinta foi depois construído um restaurante que abre ao público no dia 15. Mais uma vez as burocracias não facilitaram a vida deste médico que procura a felicidade através da constante tentativa de realizar os sonhos. Só para ver o projecto aprovado, esperou três anos, sublinha. Durante esse tempo, um pedreiro e um servente foram adiantando algum trabalho. «Foram fazendo, fazendo, fizeram tudo», frisa. Numa antiga azenha no fundo da propriedade, nasceu um edifício moderno, recheado de toques pessoais. Um dos mais curiosos resulta da utilização de um tronco de pinheiro caído na quinta durante um temporal,para sustentar o telhado do bar. Uma ideia de Vítor Nogueira, rapidamente realizada, ainda que com a oposição do arquitecto, que se despediu no dia seguinte. Se calhar, aquela solução não estava nos seus sonhos.

José Luís Sousa (Agência Lusa)


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