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Gamos, vacas
charolesas, cavalos e aves coexistem numa quinta de turismo rural nos
arredores da Figueira da Foz que atrai crianças da cidade à descoberta
de um mundo que lhes é cada vez mais estranho
Além dos turistas que a procuram, a Casa da Azenha Velha suscita a
curiosidade de muitas crianças que só costumam ver galinhas já mortas
nas prateleiras dos supermercados e pensam que as batatas já nascem
descascadas dentro de sacos de plástico. Na povoação de Caceira, a 5
quilómetros da Figueira da Foz, não se está perante um parque temático
ou um mini-zoológico embora o médico Vítor Nogueira, proprietário da
quinta, saliente «a função didáctica» dos animais. As crianças «especialmente
as das grandes cidades» são visitantes habituais dos 10 hectares da
Azenha Velha, um espaço onde podem andar à vontade «pois não há poços
nem perigos do género», diz Vítor Nogueira. Nesta descoberta do mundo
rural pelos mais pequenos acontecem situações curiosas. Um dia um
rapazinho, gritando pela mãe, pôs em sobressalto toda a gente.
Descoberto junto ao limoeiro, veio a surpresa: «Olha mãe, batatas».
Outro exemplo que, segundo o médico, «muito espanta» os mais pequenos
«é quando vêem galinhas pela primeira vez». «Vêm cá crianças das
escolas para os ver», diz Vítor Nogueira, facto que o levou a escrever
uma carta aos serviços do ministério da Agricultura, pedindo isenção
do pagamento das taxas devidas pela presença dos animais. «Eu cumpria a
lei e ia pagando» sublinha, mas a carta acabou por ter efeito contrário
ao esperado. No caso dos mofelões da Córsega, uma espécie de
cabritos-monteses, enquanto esperava pela resposta, deixou de pagar e os
serviços acabaram por lhos tirar. Os animais foram levados para Viseu e
pouco depois Vitor Nogueira estava a receber um telefonema com alguém a
perguntar que ração lhes dava. «É que os animais não comiam e ninguém
sabia o que fazer», conta. Burocracia igual a desgraça Foram os mofelões
como já antes tinha sido obrigado a desfazer-se dos javalis. Após ter
acedido a emprestar um casal para uma exposição em Coimbra, foi multado
alguns meses depois, diz Vítor Nogueira. As suspeitas de peste suína
levaram ao abate dos animais para pouco tempo depois nova comunicação
dos serviços autorizar, afinal, a sua presença. Situações como as
descritas levam o proprietário a considerar a burocracia «a grande
desgraça deste país». Quanto aos gamos ibéricos, que dispõem de um
amplo espaço próprio, ao serem considerados «uma espécie cinegética»,
só para os poder ter o proprietário paga 60 mil escudos anuais ao
Estado. Já os da Índia, dos quais possui um casal, diz que pode ter «os
que quiser». Num espaço adjacente aos gamos habitam os nandús, um
animal da família da avestruz. Vitor Nogueira começou por adquirir três
fêmeas e um macho, sem saber que estava a cometer um erro. «É que quem
choca os ovos e cria os filhos é o macho» sublinha. Em resultado disto,
as fêmeas punham ovos «em todo o lado e o pobre do macho nem sabia para
onde se virar». Todos os animais foram comprados no Jardim Zoológico de
Lisboa, uma instituição que Vítor Nogueira afirma gostar de ajudar. «Compro
tudo no zoo porque toda a gente sabe que os animais lá são bem tratados»,
afirma. Faisões, pavões e outras espécies de aves, bem como cavalos
podem ser vistos na Azenha Velha, local onde o Maestro, um boi charolês
com três anos e o respeitável peso de 1100 kg, é outra das atracções.
Nascido com 50 quilos, um animal como o Maestro durante o primeiro ano de
vida cresce à razão de dois quilos por dia, pesando cerca de 600 kg 12
meses depois. Pela quinta passou mesmo um boi que pesava 1530 kg, nos
tempos em que Vítor Nogueira se dedicava ao negócio de criação da raça
charolesa, chegando a ser proprietário de 42 cabeças de gado. “Fui
muito gozado” Nos dias de hoje resta o Maestro e três vacas que cumprem
«uma função decorativa», integrados no projecto de turismo rural. O
boi tem sido cobiçado para participar em concursos de raça charolesa,
facto que Vítor Nogueira não estranha pois outro animal da quinta em
tempos «venceu primeiros prémios em Santarém e Salamanca» afirma. Aos
67 anos, Vitor Nogueira, que continua a exercer a sua profissão de médico
de clínica geral, lembra a altura, há cerca de 30 anos, em que adquiriu
a Azenha Velha. «Fui muito gozado pelos amigos, isto era só silvas, era
a lixeira da aldeia», recorda. Na quinta foi depois construído um
restaurante que abre ao público no dia 15. Mais uma vez as burocracias não
facilitaram a vida deste médico que procura a felicidade através da
constante tentativa de realizar os sonhos. Só para ver o projecto
aprovado, esperou três anos, sublinha. Durante esse tempo, um pedreiro e
um servente foram adiantando algum trabalho. «Foram fazendo, fazendo,
fizeram tudo», frisa. Numa antiga azenha no fundo da propriedade, nasceu
um edifício moderno, recheado de toques pessoais. Um dos mais curiosos
resulta da utilização de um tronco de pinheiro caído na quinta durante
um temporal,para sustentar o telhado do bar. Uma ideia de Vítor Nogueira,
rapidamente realizada, ainda que com a oposição do arquitecto, que se
despediu no dia seguinte. Se calhar, aquela solução não estava nos seus
sonhos.
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